Há quase trinta anos, mais precisamente na noite de 28 de setembro de 1968, Caetano Veloso era quase que literalmente espinafrado no palco no Tuca, Teatro da Universidade Católica em São Paulo. O episódio – que fez Caetano reagir a uma chuva de ovos e
tomates com um dos mais contundentes discursos da história recente do país – faz parte de um dos mais interessantes capítulos da música popular brasileira: o que trata dos festivais da canção.
Celebrados por uns, execrados por outros, os festivais de música popular são importantes para o processo de formação da atual música popular brasileira. Por eles passaram compositores da grandeza de Tom Jobim, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento, Edu Lobo, Geraldo Vandré,
Toquinho, Paulo César Pinheiro... Também não foram poucos os intérpretes que chegaram ao sucesso pela via do vestibular dos festivais. Elis Regina, Jair Rodrigues, Os Mutantes, Gal Costa, Amelinha são alguns nos intrépidos intérpretes (não deu pra resistir ao trocadilho) que se arriscaram a levar as
mesmas vaias, ovos e tomates que despertaram a ira de Caetano, tudo em busca de um lugar ao sol no cenário da MPB. Mas por onde andam os festivais? O que aconteceu com uma das principais vitrines da música popular no país? Que formas os festivais têm hoje?
A palavra “festival” pode compreender eventos tão diversos quanto o Rock in Rio Festival. Um mega-evento de números astronômicos, e os festivais de inverno das cidades do interior do país. Entre um extremo e outro, há uma infinidade de encontros, concursos, saraus, entre outros et céteras musicais, todos
sob o título de festival, competitivos ou não. Fora da esfera da música, então é um festival de festivais. Festival do Vinho de Sei-lá-onde, Festival da Soja de Algum Lugar, Festival de Dança de Ali Longe, Festival Agropecuário de Onde Judas Perdeu as Botas e por aí vai.
Mas o que ficou conhecido como “os festivais” são, na verdade, os festivais de Música Popular que nasceram e tiveram seu auge de popularidade nos anos 60.Mais precisamente entre os festivais realizados entre 1966 e 1968, período que pode ser considerado “a era de ouro dos festivais”. Entre vários
concursos diferentes, dois tiveram um papel decisivo para a construção da idéia que se tem hoje sobre essa época áurea dos festivais: o Festival de Música Popular da TV Record e o Festival Internacional da Canção, o FIC.
Na segunda metade da década de 60, principalmente, esses festivais sacudiram o Brasil anualmente e levaram multidões aos auditórios e ginásios, promovendo uma febre popular só comparável ao carnaval. Em artigo entitulado Cantiga por este Rio, de 13 de outubro de 69, Edgard de Alencar definiu da seguinte
forma o fenômeno dos festivais: “Um dos acontecimentos maiores talvez do mundo e o maior do Brasil como festa para o povo, só cedendo lugar ao honroso Carnaval carioca”.
Seja pelo prestígio desses dois concursos, pela veiculação na TV ou pelos prêmios oferecidos, tanto os Festivais da Record quanto os Festivais Internacionais da Canção conseguiam reunir e lançar a nata dos novos compositores do país, o que só fazia crescer o status de ambos e de seus participantes. Tudo,
porém, teve início bem antes, longe dos auditórios de TV e de ginásios como o Maracanãzinho. Sem muita mídia, sem muito glamour, mas enfim, já com o embrião dos grandes festivais da canção.
Em 1960 foi realizado o primeiro festival considerado de música popular brasileira. Batizada de A Mais Bela Canção de Amor, a disputa foi realizada por Abrahão Medina e realizada na orla da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. Canção em tom maior, de Ari Barroso, ficou em primeiro lugar. Em segundo ficou a
música Ternura antiga, de Dolores Duran e Ribamar, interpretada por Ellen de Lima.
Três anos mais tarde, a história dos festivais deu mais um passo com a realização de Uma Canção Por Um Milhão. No ano seguinte, o primeiro festival pós-golpe, já inflacionado, passou a se chamar Dez Milhões Por Uma Canção. Ellen de Lima era intérprete da canção vencedora, A lei do mais fraco, parceria de
Jaconina e Murilo Latim. Esses primeiros festivais, no entanto, eram musicalmente fracos, por isso não tiveram muita repercussão e serviram como uma espécie de esboço para os festivais que vieram a ser realizados.
Em 1965, a TV Excelsior realizou o I Festival de Música Popular Brasileira, dando o pontapé inicial para a nova era nos festivais da canção. Deste saiu o primeiro grande fenômeno dos festivais: Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Morais, interpretada por Elis Regina. A música não apenas levou o primeiro
lugar e uma gorda premiação em dinheiro, como caiu na boca do povo, foi consagrada e pulou para os primeiros lugares nas paradas de sucesso e nas listas de vendagem de discos.
Mais ainda: Arrastão ganhou mais de 50 regravações, virou tema de filme e sua intérprete, Ellis Regina, na época com 21 anos, passou a figurar entre os grandes nomes da MPB. Fenômeno tão grande fez passar desapercebido o samba Sonho de Carnaval, do então anônimo Chico Buarque de Holanda. Classificada
entre as 12 finalistas, a música foi defendida pelo também desconhecido Geraldo Vandré. Não é exagero dizer que a realização dos festivais seguintes e a sua qualidade foram conseqüência da performance que a música de Edu Lobo e Vinícius de Morais obteve na mídia. Sua fantástica repercussão atentou para o
potencial dos festivais.
Para o autor de Arrastão, Edu Lobo, toda essa mídia e mesmo a existência dos festivais eram impulsionados pela televisão. “Os festivais eram mais programas de televisão do que qualquer outra coisa. Naquela época existiam muitos programas de músicas na televisão. Mas apesar de tudo os festivais eram
positivos porque a TV era uma grande vitrine; foi legal pra todo mundo como exposição”, conta Edu, que considera Ponteio, vitoriosa dois anos depois, e não arrastão, como um marco na sua carreira.
Deste mesmo festival, outras duas canções merecem destaque. Preciso aprender a ser só, de Marcos e Sérgio Vale – um dos maiores sucessos de vendagem daquele ano e vencedor do prêmio JB de melhor música -, e Saveiros, de Dori Caymmi e Nélson Motta – vencedor da parte nacional do I Festival Internacional da
Canção (FIC), em 66. O detalhe é que as duas sequer foram classificadas entre as 12 finalistas do festival da Excelsior e, já aí, começavam as polêmicas em torno da capacidade do júri e da interferência de interesses externos nas decisões dos festivais.
A própria Arrastão comprova esta duvidosa capacidade do júri, uma vez que a música que veio a ser a grande vencedora do festival fora anteriormente preterida pela banca selecionadora, ficando em seu lugar Aleluia, outra composição de Edu Lobo. Foi o próprio Edu quem pediu pela troca, considerando que
Arrastão era mais forte para participar de um festival. Surgiu daí também a idéia de “música de festival”, uma classificação pejorativa para as composições mais preocupadas em empolgar o público logo de início do que com a qualidade musical.
Edu Lobo critica os critérios do julgamento dos festivais. “Várias músicas fantásticas não ganharam festivais. Uma balada dificilmente ganharia um festival concorrendo com um baião, por exemplo, que tem uma estrutura rítmica muito mais complexa. E como é que se compara um choro com um baião pra dizer qual
é o melhor?”, questiona.
1966 chegou com novidades e a TV Record assumiu a realização do festival no lugar da Excelsior. Assim, entre setembro e outubro foi realizado o II Festival de Música Popular. Enquanto os súditos da rainha comemoravam sua primeira – e única – Copa do Mundo, do lado de cá do Atlântico a grana (já com novo
nome) para o vencedor do festival ampliado para trezentos mil cruzados novos. Este festival é considerado por muitos como o melhor já realizado no país, ou pelo menos o que teve a maior repercussão. Isso porque duas canções disputavam, voto a voto, a opinião do público e, praticamente, dividiram o Brasil
ao meio: A banda, de Chico Buarque, tendo Nara Leão como intérprete, e Disparada, de Théo de Barros e Geraldo Vandré, defendida por Jair Rodrigues.
Depois de 40 minutos de reunião entre os jurados, começou a circular o boato de que haveria um empate. Mas o júri optou por A banda, sete votos contra três. Sabendo disso, Chico Buarque, ainda nos bastidores, se apressou e pediu que o prêmio fosse dividido. Assim foi e todo mundo saiu satisfeito. A banda
engrenou uma bela carreira no exterior, sendo regravada em vários outros países, entre eles a Argentina, Itália e Estados Unidos. Das outras concorrentes, apenas Ensaio geral, de Gilberto Gil, conseguiu sucesso.
No mesmo ano de 66, o Rio sediou outro concurso que, juntamente com o Festival da Record, teria força comercial, apelo popular, status e relevância de uma forma geral: o Festival Internacional da Canção (FIC). Antes das feras internacionais chegarem ao Brasil para defenderem as canções representantes de
seus países, a parte nacional do concurso fazia o clima, arrastando multidões ao ginásio do Maracanãzinho e acirrando discussões que se tornaram lendas.
Nesta primeira edição, o FIC levou verdadeiras torcidas organizadas para a finalíssima no Maracanãzinho, que viram Saveiros, de Nelson Motta e Dori Caymmi, levar o Galo de Ouro, símbolo do festival. Com um arranjo completamente diferente, Saveiro não ficara entre as 12 finalistas do festival da Excelsior
dois anos antes.
Geraldo Vandré mantinha a regularidade e chegava entre os primeiros, conquistando o segundo lugar com O cavaleiro. Dia das rosas, de Luiz Bonfá e Maria Toledo, conseguiu o terceiro lugar. No final, o saldo foi positivo, com grandes nomes da MPB concorrendo na parte nacional do concurso e alguma das
maiores estrelas da música internacional presentes no Rio para defender as músicas de seus países.
Em 1967 os hippies pregavam o amor livre mundo a fora, a Tropicália se tornava uma realidade nacional e os festivais eram uma febre que contagiava o país inteiro. Foram realizados 12 deles em várias cidades do Brasil. Mas chegou o III Festival da Record e todas as atenções se voltaram para ele. Os
compositores sabiam que esse era o caminho mais curto para a gravação de um disco ou a consolidação de uma carreira. Numa das mais fortes disputas da história dos festivais, Ponteio, do já veterano, Edu Lobo com Campinam, levou a viola de ouro. Domingo no parque, de Gilberto Gil, ficou com o segundo
lugar; Roda Viva, de Chico Buarque, em terceiro; e Alegria, Alegria, de Caetano, em quarto.
Mas o grande acontecimento (típico de festivais) foi o acesso de ira de Sérgio Ricardo. Sérgio seria, por sorteio, o oitavo a se apresentar, mas o simples anúncio de seu nome e da canção que defenderia, Beto bom de bola, as vaias (apenas porque o público não gostava da música) tiveram início. Antes de
começar a cantar, Sérgio Ricardo pede “calma” ao público, mas de nada adiantou. Ele então foi em frente debaixo de vaia mesmo, até que, inseguros, Sérgio e o conjunto que o acompanhava começaram a atravessar o ritmo da música.
O compositor, irônico, parou no meio da música e mandou essa: “quando terminar o festival vou mudar o nome da música para Beto bom de vaia”. Isso só fez aumentar as vaias, até que Sérgio desistiu. Completamente fora de si, o cantor foi até a beira do palco e disparou: “Vocês ganharam! Vocês ganharam! Isso
é o Brasil subdesenvolvido! Vocês são uns animais!”. Em seguida ele espatifou o violão sobre um banquinho de madeira, o atirou sobre o público e saiu do palco descontrolado. O gesto o desclassificou do festival, mas entrou para a história da música brasileira.
Passado mais de trinta anos do famoso gesto, Sérgio Ricardo vê com outros olhos os festivais. “Eles eram positivos para os novos compositores, que precisavam mostrar seus trabalhos. Eu já era conhecido e não deveria ter concorrido, mas para Chico, Gil, Caetano, Edu Lobo e outros, os festivais foram
importantes. Hoje as gravadoras só pensam em retorno comercial e não em cultura. Isso é sério, porque pessoas de valor não encontram meios de divulgar seus trabalhos e os festivais cumpriam esse papel”.
Atualmente Sérgio Ricardo está em estúdio preparando seu novo CD, depois de ter feito a trilha da novela Mandacaru e ter musicado o cordel de Carlos Drummond de Andrade, a História de João e Joana. O compositor conta que seus trabalhos posteriores ao festival de 67 não sofreram as conseqüências de seu
ato. “E verdade que eu fiquei um pouco estigmatizado, mas isso não me afetou. Eu fui fazer outros trabalhos com cinema, com pintura...”. A única crítica de Sérgio aos festivais é quanto ao comercialismo dos concursos. “Eu e a brisa, de Jonny Alf, por exemplo, foi desclassificada de um festival, e, no
entanto, era a música mais bonita. O importante era fazer com que as TVs tivessem audiência, depois vinha a música”, lamenta.
Sem tanta polêmica, o II FIC, realizado também em 67, revelou o talento de Milton Nascimento, que defendeu Travessia, de composição e letra de Fernando Brandt. Num maracanãzinho eufórico, quem levou o primeiro lugar, no entanto, foi Margarida, de Gutemberg Guarabira. Cínara e Cibelle defenderam a favorita
do público, Carolina, de Chico Buarque, que acabou levando o terceiro lugar.
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